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Olympio Serra faleceu no Rio de Janeiro em 02 de outubro deste ano. De líder estudantil a antropólogo, foi um protagonista, discreto, mas incisivo, da história do melhor indigenismo no Brasil das últimas décadas. Na direção do Parque Indígena do Xingu (hoje, Território Indígena do Xingu), sucedendo a Orlando Villas-Boas, fez da sua gestão uma virada, já que foi ele o primeiro a mostrar para os povos Indígenas do Xingu que eles mesmos poderiam ser os protagonistas da sua história. Virada política e administrativa, ousamos dizer uma espécie de revolução, superando o paternalismo e espalhando um espírito de reflexão crítica entre os jovens líderes xinguanos. Trabalhando na sombra da ditadura militar, com uma presença pesada dos militares na Fundação Nacional do Índio, Olympio manteve uma postura crítica, independente, e nunca se deixou calar. Acolheu e apoiou generosamente uma geração de jovens antropólogos que chegaram até ele querendo trabalhar no Xingu, entre os quais os autores desta nota e Eduardo Viveiros de Castro. Sem ele, provavelmente, o início das nossas jornadas de pesquisa e aprendizagem teria sido bem mais acidentado. Em janeiro de 1979, Olympio foi, obviamente, afastado depois de quatro anos na direção do Parque, pelas últimas investidas repressoras da Funai militarizada. Continuou sua militância. Na Fundação Pró-Memória do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) foi um dos primeiros a impulsionar a agenda dos direitos das comunidades quilombolas a seus territórios tradicionais e memórias, direitos consagrados na Constituição de 1988. Sentimos falta de sua fala mansa, do seu sorriso maroto, da sua imensa humanidade, da sua coerência, do seu afeto.
Bruna Franchetto e Stephan Schwartzman Os comentários estão fechados.
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